Tratamento de choque

913884_4071291199155_748110494_oEm um dos últimos contos que escrevi, o protagonista e narrador da história é um escritor que passa a limpo, de maneira mui superficial – porque, se eu fosse mergulhar na história, seria uma novela ou um romance, e a história perderia o impacto que imagino ter sendo um conto – a sua vida. Ele mostra como os livros – a literatura – tiraram tudo o que ele havia conquistado, apesar de eles – ela – também ter lhe proporcionado outras conquistas.

Não lembro como ou de onde veio a ideia para essa história, mas certamente não foi inspirado em algum fato pessoal ou em alguém. De fato, há uma pequena passagem inspirada em um amigo, um trecho curto, no qual o narrador afirma ter passado anos escrevendo apenas esboços de ideias, sinopses de contos e romances que ele nunca levou adiante, mas, exceto esse pequeno trecho, não há nenhuma inspiração em fatos ou pessoas reais.

É engraçado – na verdade, irônico (eu diria até ridículo) – que hoje eu me sinta um pouco como esse personagem criado por mim. Não que os livros – a literatura – tenham tirado de mim tudo o que eu tenho de mais importante, longe disso. Mas não pude deixar de perceber como, durante os anos em que mergulhei no mundo dos livros, me deixei contaminar por vícios que, como todo vício, me prejudicaram.

Um desses vícios – a ideia aqui é comentar apenas ele; os outros são inofensivos e bobos; por isso, vou me ater ao mais grave – é o de comprar livros.

Durante anos comprei livros sem qualquer controle. O meu único critério era: quero este livro, vou comprá-lo. A maioria das compras era feita pela internet, sempre aproveitando promoções e fretes gratuitos. O ápice disso foi entre 2007 e 2009, período no qual eu gastei uma quantia bastante alta – mas alta, mesmo -, segundo verifiquei depois de uma pequena “auditoria” que fiz das notas fiscais que eu guardava e dos pedidos registrados nos sites que comprei.

Foi isso que me assustou um pouco. O suficiente para diminuir consideravelmente as compras virtuais. Porém, as compras físicas aumentaram, e uma coisa meio que compensou a outra. Iludido com o fato de não ver chegar caixas e mais caixas de livros pelo Correio, pensei que meus problemas tinham acabado. Ilusão que durou até algum tempo atrás, quando decidi contar quantos livros eu havia comprado no espaço de duas semanas particularmente floridas em termos financeiros. Ao empilhar os livros e contá-los, me assustei novamente – muito, desta vez.

Então lembrei do meu conto. Do personagem que eu criei. Da vida que eu imaginei para ele. E percebi que, apesar de ser uma ficção, não seria impossível que, num futuro não muito distante, eu me transformasse nesse personagem. O criador personificando a criatura.

Foi aí que decidi radicalizar. Resolvi colocar à venda não apenas livros que eu não quisesse mais ou que comprei para revender ou que já li – algo que venho fazendo há alguns anos. Para que eu sentisse o golpe, precisaria vender também livros que não li ainda mas quero ler, e aqueles que já li mas quero ter na estante. Eu precisaria ter, com as vendas, o mesmo ímpeto que eu tinha com as compras. Ou ao menos algo próximo disso.

Tenho encarado essa fase pela qual estou passando como uma espécie de tratamento. Não pude, contudo, deixar de me iludir uma última vez, e fiz uma espécie de compra de despedida antes de me submeter a esse “tratamento”. Não foi uma compra exagerada, o bolso já não permite exageros, mas achei que precisava de uma despedida, algo que funcionasse como um marco. Sendo um pouco dramático, seria o ponto entre o fim de uma era e o início de outra. De lá para cá, fico feliz em ter comprado somente um único livro. Vontade de comprar outros eu já tive, e muita, mas tenho conseguido me controlar. Quando ela bate forte, me pergunto, várias vezes: “você vai ler agora?”.

A resposta é sempre “não”.

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