O que é o fascismo? e outros ensaios, de George Orwell

Entre as características mais admiráveis em George Orwell estão a sua franqueza e a sua sinceridade. Uma outra é o seu estilo. Mesmo escrevendo sobre assuntos complexos e espinhosos, os textos de Orwell são de simplicidade e limpidez incríveis.

(É bom deixar claro que me refiro ao Orwell ensaísta, não ao romancista, que ainda não tive o cuidado de conhecer. Já o ensaísta, conheço de outros carnavais.)

Todas essas qualidades podem ser comprovadas nas seletas de ensaios e artigos de Orwell que foram publicadas no Brasil nos últimos anos: “Dentro da baleia e outros ensaios” (2005), “Literatura e política” (2006) e “Como morrem os pobres e outros ensaios” (2011). E, mais recentemente, em “O que é o fascismo? e outros ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 págs., trad. de Paulo Geiger).

Como escreve, no prefácio, o jornalista Sérgio Augusto (que fez a seleção e a organização dos textos), os textos reunidos em “O que é o fascismo?…” foram escritos entre 1938 e 1948, quando Orwell cobriu “a guerra contra o nazifascismo na Europa e as primeiras escaramuças ideológicas da Guerra Fria”. Todos os 24 textos selecionados são inéditos em livro no Brasil.

Reconhecidamente de esquerda – ou, talvez melhor dizendo, reconhecidamente um social-democrata -, Orwell faz críticas à direita, é claro, mas não poupa a esquerda:

“Num país próspero, sobretudo num país imperialista, as políticas de esquerda são sempre, em parte, uma tapeação. Não pode haver uma reconstrução real que não leve, ao menos temporariamente, a uma queda no padrão de vida inglês, o que é outro modo de dizer que, na maioria, os políticos e jornalistas de esquerda são pessoas que ganham a vida pedindo algo que na verdade não querem.” (Trecho de “Sem contar os crioulos”.)

Uma demonstração da extrema franqueza de Orwell aparece logo em seguida, na sua resenha de “Mein Kampf”, a autobiografia de Adolf Hitler:

“Desde que ele chegou ao poder – até então, como quase todo mundo, fui enganosamente levado a pensar que ele não tinha importância -, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente.” (Texto publicado em 21 de março de 1940.)

Orwell também é duro ao falar especificamente de alguns escritores, como o poeta William Butler Yeats:

“Traduzida em termos políticos, a tendência de Yeats é fascista. Durante a maior parte de sua vida, e muito antes de sequer se ouvir falar do fascismo, ele tinha a aparência daqueles que chegam ao fascismo pela via aristocrática. É manifesto seu grande ódio à democracia, ao mundo moderno, à ciência, à maquinaria, ao conceito de progresso – acima de tudo, à ideia de igualdade humana.”

Infelizmente, muitas das críticas de Orwell continuam atuais. Afinal, como não pensar no presente, mais especificamente no Brasil, ao ler “Pois a esquerda também tem estado disposta a fechar os olhos a muita coisa e a aceitar alguns aliados muito duvidosos”? Como não lembrar das fake news ao ler “Por períodos bem longos, de qualquer forma, pessoas podem permanecer imperturbáveis ante evidentes mentiras, porque simplesmente se esquecem de um dia para o outro do que foi dito, ou porque estão sob um bombardeio tão constante de propaganda que ficam anestesiadas para tudo que acontece”?

Outro texto que continua atual é o que dá título à coletânea. Nele, Orwell mostra como o termo “fascista” foi banalizado e utilizado contra todo tipo de grupo organizado, corrente política ou mesmo a grupos que de fascistas não têm nada – ele brinca dizendo que o termo foi utilizado até para se referir aos cães.

No fim das contas, Orwell não chega a definir o que é fascismo, porque, segundo ele, “é impossível definir satisfatoriamente fascismo sem admitir coisas que nem os próprios fascistas, nem os conservadores, nem socialistas de nenhum matiz querem admitir”. E encerra dizendo que “Tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão”, o que não deixa de ser um bom conselho.

Muito embora tenha escrito sobre problemas de seu tempo, Orwell permanece atual porque esses problemas continuam a nos assombrar. Não à toa, seus ensaios – assim como seus romances – continuam tendo uma enorme relevância até os dias de hoje (“1984” e “A revolução dos bichos” que o digam). Sendo assim, ler Orwell, principalmente em períodos conturbados como o que estamos vivendo, é mais que recomendável. É fundamental.

2 Replies to “O que é o fascismo? e outros ensaios, de George Orwell”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *