Só a lembrança do assombro

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“Ensaio sobre a cegueira” está ausente porque vendi o exemplar que tinha. No processo da foto, derrubei “Ratos e homens” duas vezes. Ele passa bem.

Pode parecer que não, mas o autor destas mal traçadas linhas já leu muito, e leu bem. Na época em que eu fazia Letras, na universidade estadual da cidade, uma das coisas que mais gostava de fazer era ir à biblioteca e: 1) procurar os livros que meu então professor de Teoria da Literatura, o escritor Mayrant Gallo, recomendava em sala; 2) percorrer os corredores de literatura brasileira e estrangeira em busca de algo que me chamasse a atenção e despertasse a vontade de ler.

Dessa forma, li Italo Calvino, Milan Kundera, José Saramago, Jonh Steinbeck, Scott Fitzgerald, Albert Camus, Carlos Heitor Cony (vários!), Juan Rulfo e Fernando Sabino (praticamente tudo), entre outros. Contaminado pelo vírus da literatura – ou pelos fungos literatos da biblioteca -, passei a comprar meus próprios livros e, de mãos dadas com a editora Martin Claret, desembestei. Li Maupassant, Baudelaire, Rimbaud, Kafka e Dostoiévski; além dos nacionalíssimos Olavo Bilac, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos e Lima Barreto.

Depois, evoluí um pouco e parti para a L&PM. (Notem que, até o momento, me concentrei em livros de bolso, que são mais baratos. Era o que minha condição de estudante sem emprego dava para bancar.) Lá, ainda com as indicações do mestre Gallo, passeei entre Mario Arregui, Horacio Quiroga, Eduardo Galeano, Herman Melville e Charles Bukowski. Assim começou a minha vida de leitor e, na mesma época, minha vida de escritor.

Vou escrevendo e me perco, tergiverso. A questão aqui não é o começo de minha vida como leitor, mas sim o que ficou desse início na minha memória. Ou seja: nada. Ou melhor: o que ficou foi só a lembrança do assombro de algumas dessas leituras.

Lembro especialmente de ter ficado boquiaberto depois de ler “Ratos e homens” (Steinbeck), “O grande Gatsby” (Fitzgerald), “O estrangeiro” (Camus), “Crime e castigo” (Dostoiévski), “Ensaio sobre a cegueira” (Saramago), “O processo” (Kafka), “Antes, o verão” (Cony) e “O encontro marcado” (Sabino). Todos eles foram lidos praticamente um depois do outro, e isso me deixou um tanto deslumbrado, na época. Mas, a exceção de “O encontro marcado”, que revisito volta e meia, e “Ensaio sobre a cegueira”, cuja adaptação cinematográfica assisti há poucos anos, não me lembro de praticamente nada dos outros.

São livros que me fizeram um bem enorme, na época, mas que hoje, se alguém perguntar sobre o que falam, sobre algum personagem ou cena, não saberei responder. Não que minha memória seja tão ruim assim, mas talvez o volume enorme de leituras que fiz depois deles tenha feito com que esses primeiros livros, grandes livros, obras-primas da literatura, tenham sido varridos para debaixo do meu tapete de lembranças. Hoje, lembro apenas de tê-los lido, e de ter ficado impressionado com eles.

Solucionar esse “problema” é fácil: basta relê-los. Mas dá um pouco de receio pensar em reler “O estrangeiro”, por exemplo. O que esse romance provocaria em mim, hoje? Eu teria a mesma sensação da primeira leitura ou ele não me “diria” nada? Talvez meu receio maior seja este: depois de tantos anos, estar imune a assombros desse tipo. De nada adianta, porém, fazer conjecturas. Para tirar essa dúvida, será necessário fazer essas releituras. E definitivamente as farei. Só não sei quando.

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