Entrevista com Cristovão Tezza

OperarioPouco tempo depois de ser premiado, no ano de 2008, com quase todos os prêmios literários brasileiros – Jabuti, Associação Paulista dos Críticos de Arte, Portugal Telecom e Prêmio São Paulo, só para citar os mais importantes –, o escritor curitibano Cristovão Tezza, que foi professor durante 25 anos, decidiu tirar “férias”. Determinado a se dedicar apenas à escrita, em 2009 Tezza pediu demissão da universidade onde lecionava.

A essa altura, Cristovão Tezza já estava acostumado com seu novo ofício: o de cronista do jornal Gazeta do Povo, cargo assumido em abril de 2008. Romancista e contista de talento mais que reconhecido – Tezza já era considerado um grande autor antes do estouro de “O filho eterno” –, escrever crônicas seria um desafio e tanto para o escritor, levando-se em conta que o Brasil sempre foi muito bem servido de cronistas. A lista seria longa, mas quando se fala em crônica não se pode deixar de falar em Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Otto Lara Resende e Vinicius de Moraes, entre os que já nos deixaram, e Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo, Humberto Werneck, Antônio Prata, Luís Henrique Pellanda, João Paulo Cuenca e Ivan Angelo, entre os que estão na ativa.

À lista dos cronistas em atividade que merecem ser citados, devemos agora acrescentar Cristovão Tezza. A publicação de 100 crônicas do autor (selecionadas pelo jornalista, tradutor e professor Christian Schwartz), reunidas no volume “Um operário em férias” (Record), é a prova disso. As crônicas de Tezza têm uma dinâmica muito própria, um estilo bem peculiar, algo que impressiona até mesmo o leitor familiarizado com o gênero – ainda mais se formos levar em conta que o autor é um iniciante no campo da crônica.

Um texto vai puxando o outro e, quando o leitor se dá conta, Tezza já o conquistou irremediavelmente e, uma vez iniciada a leitura, é muito difícil querer interrompê-la. Principalmente se o leitor for interessado pelo ofício da escrita e por livros. As crônicas sobre livros e literatura são o ponto alto do livro.

Mas mesmo quando o assunto não é de grande interesse de quem lê – como no caso dos textos sobre o Atlético Paranaense, time pelo qual torce o escritor (que teoricamente não interessariam a quem não seja torcedor do Atlético) –, ou quando não há sintonia entre autor e leitor, como no caso dos textos sobre política, as crônicas são lidas com grande prazer.

Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Cristovão Tezza fala sobre o ofício de cronista, as manifestações populares que estão acontecendo no Brasil e avisa que está trabalhando em um novo livro.

“Um operário em férias” é resultado de um desafio aceito por você de entrar no terreno da crônica. Seus romances e contos são muito elogiados, e seguramente você sabe que é um escritor de enorme talento. Apesar disso, do seu êxito literário pregresso, houve alguma insegurança, algum receio de não conseguir, de não ser bem-sucedido na crônica?

Sim, com certeza – desde o primeiro momento senti que a crônica só é fácil na aparência, e resisti bastante a aceitar o convite da Gazeta do Povo. Estava entrando num território novo para mim. E – agora em grau menor – continuo sentindo a mesma insegurança toda semana. A clássica crônica de jornal é um texto ao vivo, um gênero indócil, um tatear temático.

Apesar de nos últimos anos a crônica ter conquistado um pouco mais de destaque no mercado editorial, ela é tida por muitos como um gênero literário menor. O que você diria para aqueles que subestimam a crônica? E, na sua opinião, quais os maiores desafios do cronista?

A crônica é um capítulo da literatura, por assim dizer, mas não se confunde com ela. É um gênero transliterário, um texto que frequentemente usa a literatura, mas com uma intencionalidade bastante diferente. Assim, não faz muito sentido falar em “gênero menor” – a crônica é outro gênero de texto, que em geral fica em algum lugar entre o jornalismo, a confissão, o ensaio e a literatura. O cronista tem de se equilibrar nesses fios toda semana, o que não é fácil. A ideia de que o mercado editorial despreza a crônica não é verdade – cronistas tradicionalmente vendem bem no Brasil, e alguns deles, como o Verissimo, frequentam as listas dos mais vendidos. O brasileiro gosta de ler crônicas. E, de alguns anos para cá, a crônica também vem mudando – o seu lado estritamente literário, ou mesmo poético, à maneira de Rubem Braga ou Drummond, vem cedendo lugar a uma certa objetividade jornalística, ao olhar mais prático para o momento político, cultural, social, mas também sem se confundir estritamente com a pura informação. Além disso, a internet está criando mais uma família de crônicas, a crônica mais longa, sem restrição de extensão, o que certamente terá consequências. Acho até que a extensão maior corre o risco de diluir a alma da crônica, que é o seu jeitão de “soneto”, aquela coisa curta e exata que o jornal em papel exige.

Tezza

Agora, uma pergunta clichê: quais autores inspiraram você nessa sua jornada pela crônica?

Nenhum autor, especificamente. As influências são o mar das leituras que fizeram minha cabeça, que vai desde Millôr Fernandes até Graciliano Ramos, dois “não-cronistas”. Sou um cronista tardio – comecei a escrever crônicas somente depois dos 50 anos, e sem nenhuma experiência de jornal.

Seu livro anterior, “O espírito da prosa”, é autobiográfico em sua essência, digamos assim, e alguns de seus livros têm elementos autobiográficos, como “O filho eterno”, “Aventuras provisórias” e “Um erro emocional”, mas nenhum deles revela maiores intimidades sobre você. Já a crônica praticamente obriga o cronista a se revelar em público. Como você, que tem um perfil mais reservado, lida com essa “exigência” da crônica?

Todo cronista cria um personagem, que ele finge que é ele mesmo. Sinto que criei uma espécie de “narrador”, alguém parecido comigo, mas que não sou eu. É uma máscara literária, por assim dizer. Mas há um leque grande de exposição possível – dizer, por exemplo, que eu tenho um pé maior que o outro e que sofro para comprar sapatos, ou confessar que já fui proprietário de um Lada, não me transformam em ator de uma cena do “Big Brother”. E a alma da crônica é o modo de dizer, o estilo – é o estilo a única face da crônica que pode lhe dar alguma perenidade, mesmo falando estritamente do tempo presente. Além disso, é claro, crônicas são documentos culturais importantes de seu tempo.

Na crônica “Um mundo sem sebos”, datada de 2009, você diz que é “fascinado por tudo quanto é quinquilharia eletrônica”. Nela, você escreve sobre livros e leitores eletrônicos, mas diz que “cá entre nós, fico com o papel”. Qual a sua “posição” a respeito dos e-books e e-readers? Você tem, teve ou já utilizou um leitor eletrônico? O que achou? Ainda acredita na convivência pacífica entre o formato impresso e o eletrônico?

Nesse caso, acredite no cronista – sou mesmo fascinado por essas quinquilharias. Comprei um Kindle na Amazon logo que foi lançado. Hoje tenho um iPad, e leio bastante nele. Assino digitalmente jornais e revistas (Folha, Estadão e, dos estrangeiros, The New Yorker e The New York Review of Books), e frequentemente compro livros digitais. Gosto da praticidade e do “volume” (viajo muito). Mas o livro de papel tem um charme invencível. Acho que são formas que vão conviver pacificamente.

Como você vê as manifestações que estão acontecendo em todo o Brasil? E o que você pensa sobre o engajamento na arte – e, mais especificamente, na literatura? O escritor teria a “obrigação moral”, digamos assim, de ser também “político”, como defendem alguns? Ou o ideal é separar as coisas, sob o risco de posições políticas, quando inseridas em uma obra, poderem prejudicá-la?

Tenho acompanhado as manifestações, e inclusive já escrevi crônicas sobre elas. Aliás, esta foi uma consequência de virar cronista: eu ando mais atento ao noticiário diário do que costumava ser, até para buscar temas. Sobre engajamento político, acho que esta é uma posição pessoal. Há escritores politicamente engajados e outros nem tanto, e escritores bons e ruins nos dois casos. Não me atrevo a ditar regra sobre como um escritor deve se comportar politicamente. Não é só uma questão de opção – é de temperamento também. Toda boa literatura fala profundamente de seu tempo, mesmo que isso nem passe objetivamente pela cabeça do escritor.

É cedo para perguntar isso, mas já há um próximo livro a caminho? Poderia falar alguma coisa sobre ele?

Sim, estou trabalhando num romance há um ano, e vou levar outro ano para terminar. É um romance de mais fôlego, que eu já estava planejando há muito tempo. Acho que, depois dele, vou poder descansar um pouco, finalmente. Ou, como eu digo numa das crônicas, terei enfim minhas férias impossíveis…

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