As nossas vidas

Quando criança, eu quis ser astronauta. Viajar em um ônibus espacial, visitar a Lua, ficar flutuando no espaço, desbravar planetas e tudo mais. Mas, depois de algum tempo, esqueci esse sonho.

Já por volta dos dez, onze anos, decidi ser jogador de futebol. Alguns anos antes eu havia feito uma escolinha e, numa partida “oficial”, entrei no segundo tempo para ocupar a lateral direita. Hoje sei que mentiram para mim ao fim do jogo, mas na época disseram que eu tinha feito uma boa apresentação, apesar de o time ter perdido. Fiquei animado por algum tempo, mas o futebol foi só um flerte.

Entre meus quatorze e quinze anos me apaixonei por História, e resolvi que seria arqueólogo. Durante as aulas, eu questionava, respondia, participava, era o xodó da professora. Não demorou muito para eu começar a me imaginar fazendo escavações e descobrindo ossadas de dinossauros e outros bichos pré-históricos.

Mas o tempo foi passando e eu fui caindo na real – ou quase. Pouco tempo depois, me apaixonei por química e física. Nada mais lógico do que decidir ser um cientista, então. Fazer mil experimentos, milhões de misturas químicas, descobrir centenas de substâncias, e por aí vai. Mas logo no ano seguinte fiquei na recuperação das duas matérias, e meu sonho se transformou em pesadelo.

Os anos se passaram sem novos devaneios, resultado do processo de amadurecimento e de desilusões que a maioria dos jovens atravessa. Mas não fiquei completamente imune, e fui vítima de algumas recaídas. Quis ser, durante algum tempo, um rock star, e cheguei a fazer teste para vocalista de uma banda. Hoje, o teste é apenas uma lembrança engraçada (assunto para uma próxima crônica, quem sabe).

Depois de todas essas fantasias, percebi que me dou razoavelmente bem na área das Ciências Humanas. Sempre escrevi bem, por exemplo – pelo menos era o que meus professores diziam –, além de me relacionar bem com todos. Nessa época estavam na moda filmes cujos protagonistas eram advogados. Foi então que me apaixonei pelo Direito. E decidi ser advogado. Mas uma prova de vestibular malsucedida – no momento de passar as respostas para o gabarito errei uma e, consequentemente, todo o resto, coisa que só vim perceber quando corrigir a desatenção não adiantava mais – fez com que meu desejo virasse pó.

Anos depois, me decidi pelo Jornalismo. Cheguei a tentar um vestibular, mas não tive sucesso. Mais realista, voltei a considerar História. Fiz outro vestibular, porém também não fui aprovado.

Por curiosidade, comparei minha pontuação com a dos aprovados em Letras, e vi que teria sido aprovado. Alguns meses depois, fiz o vestibular e passei. Durante o curso, me apaixonei pela literatura e me tornei escritor, sem jamais ter imaginado ou desejado isso.

Tudo isso para dizer, com uma pergunta: não são engraçados os rumos que, à nossa revelia, tomam as nossas vidas?

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